Caros amigos vascaínos, a única certeza que tenho é que não tenho qualquer certeza. Esse time do Vasco não permite assertivas, conclusões peremptórias ou pontos finais. O que temos são permanentes indagações, dolorosas dúvidas e um ponto de interrogação ao fim de toda frase, ao término de toda partida. Como prever o futuro dessa equipe se mal conseguimos entender o seu presente? O Vasco parece ser mais do que, de fato, é ou pode ser ainda mais do que parece ser? Por trás de tantos questionamentos, há um personagem central: Cristóvão. A situação sui generis com que ele foi alçado ao cargo talvez o deixe naturalmente em uma posição de fragilidade e seja o principal combustível para os tantos enigmas que cercam o seu trabalho e a performance do time do Vasco. Como diria Sócrates – o da cicuta, que fique bem claro –, só sei que nada sei.
Portanto, a partir de agora nada de afirmações. Compartilharei com os leitores as tantas dúvidas que envolvem o Vasco de Cristóvão. Os torcedores mais convictos do que veem que fiquem à vontade para dissipá-las:
1. O Vasco brigou pelo Campeonato Brasileiro até a última rodada por causa do Cristóvão ou perdeu o título por causa do Cristóvão?
2. O Vasco foi semifinalista da Mercosul e cumpriu viradas épicas no torneio porque Cristóvão conseguiu motivar os titulares a brigar em duas frentes ou o Vasco deixou de ir à final da Mercosul porque Cristóvão não poupou os principais jogadores, desgastando-os em uma extenuante sequência de partidas?
3. O Vasco foi o único grande a se classificar para a decisão dos dois turnos do Campeonato Carioca por conta do trabalho de Cristóvão ou foi vice da Taça Guanabara e da Taça Rio, com duas atuações apáticas e derrotas por três gols, por conta do trabalho de Cristóvão?
4. O Vasco passou para a segunda fase da Libertadores empatado em pontos com o Libertad devido a Cristóvão ou apesar de Cristóvão?
5. O Vasco abriu dois a zero na partida contra o Lanús por causa do Cristóvão ou complicou um jogo fácil e quase cedeu o empate por causa do Cristóvão?
6. O Vasco fez um excelente primeiro tempo na partida de volta contra o Lanús, a ponto de parecer enfrentar o Olaria na terceira rodada do Carioca, por obra e graça do Cristóvão ou recuou no segundo tempo, simplesmente parou de jogar e permitiu a virada dos argentinos pela interferência ou pela omissão de Cristóvão?
7. Diego Souza não é nem meia de ligação, nem centroavante, nem ponta-esquerda por falha de escalação de Cristóvão ou decide um em cada três jogos do Vasco, quando não marcando golaços, por conta da liberdade que Cristóvão lhe dá?
8. Fagner tornou-se uma das mais eficientes opções de ataque do Vasco por influência de Cristóvão ou se transformou numa fenda na defesa pela incompetência de Cristóvão?
9. Juninho ou Felipe não jogam juntos por uma míope escolha de Cristóvão ou, quando isso ocorre, nitidamente se cansam e perdem produtividade a partir dos 15 minutos do segundo tempo, forçando Cristóvão a pensar e repensar esta opção jogo a jogo?
10. Cristóvão deve ser xingado quando escala Felipe Bastos ou a torcida que guarde os palavrões para a entrada de Eduardo Costa?
Eu procuro as respostas para tantas indagações ou minhas indagações nascem justamente das respostas que já tenho? Esta é uma boa questão para concluir oportunos e sagazes comentários ou um péssimo desfecho para um rosário de irrelevantes e tediosas observações?
Os torcedores se perguntam: afinal, qual é o verdadeiro time do Vasco: o que conquistou a Copa do Brasil, disputou o título do Campeonato Brasileiro até a última rodada, foi o único grande a jogar a final da Taça Guanabara e da Taça Rio e se classificou para a segunda fase da Libertadores ou o que sofreu um apagão na decisão dos dois turnos do Carioca? A resposta para este dilema traz uma boa e uma má notícia para os vascaínos. Ambas as hipóteses estão corretas. Na inconstante aritmética que marca o atual futebol brasileiro, o verdadeiro time do Vasco é a soma destas “duas” equipes, com suas sístoles e diástoles. Num domingo, uma atuação brilhante contra o Flamengo; no outro, uma derrota por WO para o Botafogo. A característica mais regular do Vasco é a irregularidade. E de quem não é?
Pífio e ridículo são adjetivos amenos. A atuação do Vasco contra o Botafogo foi simplesmente inqualificável. Nenhum jogador, rigorosamente nenhum, apresentou uma performance que, no mínimo, pudesse ser classificada como razoável. Daqueles de quem sempre se espera um coelho a mais na cartola, Felipe ficou em casa; Diego Souza jogou como segundo Alecsandro, usando mais a canela do que os pés; Éder Luís só apareceu ao perder a melhor chance do Vasco no primeiro tempo.
Daqueles de quem não se espera nada, daí mesmo é que nada saiu. Rodolfo manteve sua impressionante constância: ora, é péssimo; ora, horroroso. Aliás, o quarto-zagueiro é uma revolução anatômica: trata-se de um ser humano sem articulações. Ele consegue correr sem dobrar os braços. As pernas são duas toras de madeira, obviamente infestadas de cupins.
Renato Silva, que é Renato Silva, sofre da síndrome do “Diga-me com quem andas”. Quando joga ao lado de Dedé, às vezes até parece ser menos pior do que de fato é. No entanto, a companhia de Rodolfo lhe é desastrosa. Acaba contagiando-o e potencializando suas fragilidades. Renato Silva e Rodolfo só não formam a pior dupla de zaga entre os grandes clubes brasileiros porque ambos sequer formam uma dupla. Este é o típico caso em que um mais um dá zero.
Contra o Botafogo, os dois zagueiros ainda tiveram um coadjuvante à altura. Fernando Prass não tomou nenhum frango. Aliás, Fernando Prass nunca toma um frango. Suas falhas são discretas, dissimuladas, quase às escondidas. Mas estão lá, repetidamente. Um grande goleiro não toma um gol como o de Kleberson, esteticamente um chute lindo, mas absolutamente defensável.
Contra o Botafogo, Prass ajudou a entregar o ouro nos dois gols de Loco Abreu. Goleiro que sai para fechar o cruzamento e não intercepta a bola é como se simplesmente desaparecesse do campo. Nem corta o passe, nem está no gol na hora da conclusão. Não foram erros gritantes. Repito: Fernando Prass nunca falha clamorosamente. Mas são pequenos detalhes que certamente não escapam à vista de torcedores mais exigentes, como, por exemplo, o fato de que ele quase nunca agarra de maneira definitiva um cruzamento. De cada dez saídas do gol, em nove Fernando Prass soca a bola. Por vezes, acerta um direto no estômago do torcedor vascaíno.
Não há outra alquimia possível no futebol. A mistura de péssimas atuações individuais resulta inexoravelmente em um desastre coletivo. Desastre que se anunciou cedo, logo aos quatro minutos. O Vasco conseguiu levar o mesmo gol que tomou contra o Flamengo: contra-ataque rápido, zagueiros ausentes, cobertura porcamente posicionada e um a zero contra.
No caso do gol do Loco Abreu ainda existem alguns agravantes. Por que um time, apenas com quatro minutos de jogo, decide bater uma falta do meio de campo sobre a área e, pior, levando para o ataque seus dois zagueiros? Para completar, o Vasco conseguiu tomar um gol no contra-ataque do contra-ataque. A cobertura falhou duas vezes em um mesmo lance. Na primeira, Fagner ainda conseguiu se desdobrar e dar um chutão para fora. Mas, com a sorrateira ajuda da gandula Fernanda Maia (que, ao fim do jogo, deu volta olímpica com o time, transformando-se numa espécie de ladrilheira alvinegra), o Botafogo bateu rapidamente o lateral e nenhum jogador do Vasco se posicionou nas costas do lateral-direito, para ocupar o vazio deixado por Renato Silva e Rodolfo (desculpem a redundância).
Cristóvão também deu sua cota de contribuição para a terrível tarde vascaína. Primeiro, pelo time absurdamente desarrumado em campo. Depois, só para não variar, errou a mão nas substituições. Como um técnico pode prescindir de seu único homem de área perdendo uma partida por dois a zero? Qual foi o critério que ele utilizou para sacar Alecsandro? Centroavante não joga bem ou mal. Centroavante marca ou perde gol. Qual a culpa de Alecsandro se o time não teve competência para armar uma jogada sequer que o deixasse em possibilidade de arremate?
Enfim, o fato é que o time do Vasco conseguiu a façanha de perder os dois turnos. Depois de 41 anos, Fluminense e Botafogo voltarão a decidir um campeonato. Verdade seja dita, mais por culpa do Botafogo, que pouco chega a finais, do que do Fluminense.
Em tempo: não me venham os torcedores botafoguenses com a velha ladainha de que seu time nunca perdeu uma final contra o Vasco. O Flamengo tem 100% de derrotas para o Bangu e o Santo André em decisões. O Fluminense idem contra o Paulista, de Jundiaí. O mesmo se aplica ao Botafogo contra o Juventude. E não me consta que o Flamengo queira ser o Bangu e o Santo André, o Fluminense queira ser o Paulista, e o Botafogo queira ser o Juventude.
Assim como, Deus nos livre e guarde, o Vasco nunca quererá ser o Botafogo.
O Equador já faz parte, de forma indelével, da história do futebol brasileiro, mais precisamente do carioca. Guaiaquil e Quito são patrimônios do esporte do Rio de Janeiro. Que outro país e que outras cidades estão tão intimamente ligadas às venturas e desventuras dos clubes da Cidade Maravilhosa, notadamente quando o assunto é Libertadores da América. Mais do que isso: depois do Brasil e de Portugal, o Equador é a pátria de todo o vascaíno. Somos nações irmãs, tamanhas as alegrias que o futebol equatoriano tem nos proporcionado.
Senão vejamos. Três clubes cariocas, três Libertadores, três histórias diferentes. Apenas um vencedor.
Ao bacalhau, as batatas, com muito azeite, logicamente. Em 1998, o Vasco foi, viu e venceu. Voltou de Guaiaquil com a maior conquista da sua história. E ainda angariou a simpatia dos derrotados. Muy fidalga, a direção do Barcelona fez um tributo ao time com o qual teve a honra de disputar a final da Libertadores. Recentemente, enviou ao Brasil um time de infantes para a despedida de Edmundo. Com a gentileza, permitiu aos orgulhosos pais cruzmaltinos acordarem seus filhos no dia seguinte com a notícia de que o Vasco havia derrotado o Barcelona por nove a um. “E o Messi, papai?”. “Meu filho, nem veio ao Brasil. Ele é doido de enfrentar o Dedé?”.
A final de 1998 foi apenas o primeiro dos prazeres que o futebol equatoriano nos trouxe. Estamos agora em 2008, desta vez, não no Monumental Isidro Romero Carbo, de Guaiaquil, mas no bom e velho Maraca. Depois de passar por São Paulo e Boca Juniors, não seria a LDU que impediria o título do Fluminense, mesmo após a derrota no primeiro jogo. Seria como eliminar o Barcelona e o Milan e perder a Liga dos Campeões para o Gil Vicente, diziam alguns tricolores. Inconcebível!
Mas Cevallos – que, dez anos antes, assistiu, do banco de reservas, à derrota do seu Barcelona em Guaiaquil – não queria ser vice de novo. O catimbeiro e, diga-se de passagem, péssimo goleiro pegou os pênaltis de três dos principais jogadores tricolores, Thiago Neves, Conca e Washington. E o Fluminense seguiu sua sina de ser um dos grandes clubes brasileiros sem conquistas internacionais. E não vamos nem falar da Sul-Americana do ano seguinte, porque aí já é torturar demais o coração da turma de grená.
Nós, vascaínos, já tínhamos motivos mais do que suficientes para amar o futebol do Equador. Mas, depois do Barcelona e da LDU, ainda havia mais um time do bravo país sul-americano disposto a nos dar uma alegria memorável.
Uma alegria, diga-se, dividida em dois atos de crueldade. O primeiro, na semana passada. A virada sobre o Flamengo nos últimos minutos era um prenúncio, mas ainda bastante modesto, do que estava por vir.
Quinta-feira, 12 de abril. No Engenhão, o Flamengo faz uma partida sublime, digna dos aplausos que, lamentavelmente, a torcida rubro-negra negou ao time – e como fica o “sempre estarei contigo” da canção entoada nos estádios?
Em Assunção, tudo dava certo. Até que deu errado, e o Emelec fez o segundo gol, até que deu certo de novo, com o empate do Olímpia nos acréscimos. Festa no Engenhão. Leo Moura, exibindo suas femininas tatuagens nos ombros, comemorava ao vivo na TV. Era a consagração. Mas o Olímpia, como bom paraguaio, talvez nem seja do Paraguai e, sim, do Equador. Seu gol de empate, mal sabiam os rubro-negros, fazia parte da festa. Da nossa festa. Tornou ainda mais espetacular o desfecho do jogo, com o épico gol do Emelec no lance seguinte. Gol, aliás, marcado por um jogador de nome emblemático: Quiñonez. Coincidência? A foto com o rosto de Leo Moura no momento do anúncio do desempate deveria ir para a sala de troféus do valente time equatoriano.
Vascaínos, temos uma missão patriótica. Devemos torcer fervorosamente pelo Equador nas Eliminatórias para a Copa. Afinal, que país é esse que nos proporciona tantos prazeres no mais prazeroso dos esportes?
Por favor, todos de pé, para cantar o hino de nossa pátria-irmã:
Salve oh Patria, mil veces! Oh Patria!
gloria a ti! Y a tu pecho rebosa
gozo y paz, y tu frente radiosa
más que el sol contemplamos lucir.
Indignados tus hijos del yugo Cedió al fin la fierezaespañola,
que te impuso la ibérica audacia, y hoy, oh Patria, tu libre existencia
de la injusta y horrenda desgracia es la noble y magn¡fica herencia
que pesaba fatal sobre ti, que nos dio, el heroísmo feliz;
santa voz a los cielos alzaron, de las manos paternas la hubimos,
voz de noble y sin par juramento, nadie intente arrancárnosla ahora,
de vengarte del monstruo sangriento, ni nuestra ira excitar vengadora
de romper ese yugo servil. quiera, necio o audaz, contra sí.
Los primeros los hijos del suelo Nadie, oh Patria, lo intente. Las sombras
que, soberbio; el Pichincha decora de tus héroes gloriosos nos miran,
te aclamaron por siempre señora y el valor y el orgullo que inspiran
y vertieron su sangre por ti. son augurios de triunfos por ti.
Dios miró y aceptó el holocausto, Venga el hierro y el plomo fulmíneo,
y esa sangre fue germen fecundo que a la idea de guerra, y venganza
de otros héroes que, atónito, el mundo se despierta la heroica pujanza
vio en tu torno a millares surgir. que hizo al fiero español sucumbir.
De estos héroes al brazo de hierro y si nuevas cadenas prepara
nada tuvo invencible la tierra, la injusticia de bárbarasuerte,
y del valle a la altísima sierra gran Pichincha! prevén tú la muerte
se escuchaba el fragor de la lid; de la patria y sus hijos al fin;
tras la lid la victoria volaba, hunde al punto en tus hondas extrañas
libertad tras el triunfo venía, cuando existe en tu tierra: el tirano
y al león destrozado se oía huelle sólo cenizas y en vano
de impotencia y despecho rugir. busque rastro de ser junto a ti.