Vou menos ao teatro do que deveria (e gostaria) para ter a pretensão de escrever uma resenha abalizada. Porém, como o tema tem a ver com o universo desse blog (os encontros e diálogos da cultura pop japonesa com a brasileira) fiquei na obrigação de comentar a peça “O céu está vazio“, da Cia Casa de Jorge. Hoje, dia 1º, é o último dia da temporada na Casa de Cultural Laura Alvim (em Ipanema), e recomendo que você carioca vá às 20h ver de perto.
Abrem o programa do espetáculo algumas generosas palavras de Sérgio Britto: “Jorge Caetano e Julia Spadaccini sonham com um teatro em aberto, algo que não é isso nem aquilo, algo novo“. Acrescento que o a cultura pop é muito bem representada em “O céu está vazio”, tamanha são as inserções de linguagem de quadrinhos e animação. Estão no programa da peça, como também na divisão das cenas (com projeções de títulos fazendo as vezes de título de cada “capítulo”). Tudo com som e iluminação caprichados na simplicidade.
Céu vazio, teatro cheio
Sucesso de público e critíca, a parceria com a dramaturga Julia Spadaccini (responsável também por Luluzinha Teen) com Jorge Caetano segue firme, chegando ao 3º espetáculo dos dois juntos (“Não vamos falar sobre isso agora” e “Os Estonianos” foram as anteriores). Jorge Caetano, no entanto logo adverte que “O céu está vazio” não é sobre cosplay: “O espetáculo apresenta o tema, mas não é esse o foco“, diz.
E realmente não é. A personagem Emília é sim uma cosplayer assumida. Mas isso não passa de um dado a mais na narrativa. Um charme, é verdade, que caí como uma luva diante da personalidade ambígua e angelical.
A peça trata de conflitos familiares no turbilhão de um divórcio. Como por exemplo a traição pode mudar um lar completamente. Há diálogos muito dinâmicos entre gerações diferentes, marcando as tais tribos (entenda-se tribos como: emo, cosplayer, hippie e até mesmo taróloga). Especialmente pai x filho, o representante “emo”. Há muito ruído (literalmente!) no contato entre os dois, que tentam aos trancos e barrancos algum entendimento. Emília é quem se põe entre os dois, tranformando para sempre aquela relação conturbada.
O ator Pedro Naine, professor de interpretação para cosplayers, disse em entrevista ao site do Cosplay in Rio Show que gostou do que viu. “Uma peça que tem no tema a comunicação, é inteligente exatamente ao querer se comunicar com o público. Tratou o jovem de forma natural sem estereotipar as ‘tribos’ exploradas e metaforizou de maneira bela o uso de uma ‘Cosplayer onírica’“, afirmou após assistir ao espetáculo, parabenizando os envolvidos em “O céu está vazio” pela ousadia.
O que é interessante como análise é como o cosplayer adentra definitivamente o imaginário coletivo, e, acima de tudo, como o cosplay faz parte da cultura pop. Seja em que instância for (até no teatro tradicional), agora a “categoria” tem seu lugar consolidado.
Jorge Caetano e a valorização da cultura pop
Entrevistei o diretor Jorge Caetano, que confessou logo o seu lado nerd ao afirmar que gosta de Tintim, Asterix, Tio Patinhas, Marvel e DC Comics. Colecionador de bonecos de séries clássicas, dos anos 60 e 70, Jorge defende uma valorização maior da cultura pop. Recentemente também foi um dos jurados no Cosplay in Rio Show.
Com quase 25 anos dedicados a carreira de ator, e a mais de sete anos como diretor teatral, comprou o pioneiro desafio de representar nos palcos uma personagem cosplayer. Sua marca (pelo menos para um leigo) seja a mistura de linguagens na narrativa: há muito de animação e quadrinhos por exemplo.
TEMAKI: Quando viu pela primeira vez uma apresentação de cosplay?
Jorge Caetano: Foi em 2010, no evento Cool Japan (na Academia Brasileira de Letras), que fui a convite do meu amigo Fernando Molinari. Lá foi a primeira vez que entrei em contato com esse universo do cosplay – e adorei.
Nunca tinha ouvido falar em cosplay… quer dizer, não dessa forma. Já sabia que existia o movimento a partir do Star Trek, Star Wars, ou no próprio Rocky Horror Show as pessoas se vestiam conforme os personagens do filme.
Esses jovens que se vestiam de “histórias em quadrinho” já conhecia, mas não tinha identificado ainda como cosplay.
De onde surgiu a ideia de trazer o tema para o teatro?
Jorge Caetano: A Julia queria falar na peça dos jovens de hoje, e pegar um de cada tribo. Ela, por exemplo, que teve a ideia do rapaz emo.
O título da peça sempre foi “O céu está vazio”, aí quando vi o Maurício e a Mônica Somenzari fazendo a performance dos anjos no Cool Japan, eu adorei e ali tive a ideia. Logo depois do evento liguei pra Julia, e falei “Vamos colocar a personagem como cosplayer, inclusive vamos colocá-la com as asas“.
É uma cosplay criada para a peça e é um dado ela ser a cosplayer. É claro que ela não é só cosplayer. É uma menina que fica em aberto até se ela existe ou não, se é um anjo que passou por aquela família problemática… existe essa brincadeira também.
E como diretor teatral, reconhece as cenas interpretadas em eventos (ou melhor, concursos) de cosplay como cênicas?
Jorge Caetano: Sim. Para mim o cosplay é teatro, e os cosplayers são atores.
Como estão sendo as reações do público nessa primeira temporada?
Jorge Caetano: Muito boa. Está sendo ótimo, as pessoas estão adorando. Há muito riso também. As pessoas riem até de coisas sérias na peça.
Como define o estilo de “O céu está vazio”?
Jorge Caetano: Diria que é uma comédia dramática. Por enquanto só dirigi as peças da Julia. Sempre trabalhamos com o drama e a comédia ao mesmo tempo. Que é o patético das coisas do ser humano.
A Julia representa de uma forma poética e ao mesmo tempo engraçada, isso é o que mais gosto no texto dela.
Em “O céu está vazio” há o encontro de várias linguagens audiovisuais, e recursos de som e até uma animação (estilo mangá) é projetada no palco. É uma característica dos seus trabalhos, ou uma particularidade dessa peça?
Jorge Caetano: É o meu estilo, continuar trabalhando com a linguagem pop. Sempre inspirado nos quadrinhos, artes plásticas, seriado de TV.
Antes de fazer teatro eu queria fazer animação. Mas naquela época que entrei na faculdade o cinema era muito complicado. Eu tinha que ter embora pra fazer animação… pensei até em ir para o Canadá.
Ainda tenho vontade de fazer animação, mas talvez no teatro continue mesclando animação, com vídeos, junto com a atuação.. pode assim fazer parte da minha estética, da minha assinatura.
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Serviço
Casa de Cultura Laura Alvim – Teatro
Av. Vieira Souto, 176 – Ipanema
Tel: (21) 2232-2016
Temporada até 1º de abril de 2012
Domingo às 20h
Duração: 1h15min
Elenco: Paulo Giarini; Priscila Steinman; Rael Barja; Thaís Tedesco
Preço amigo: R$ 10 (avisar na bilheteria sobre convite do Jorge Caetano)
Por essa ninguém esperava: Cavaleiros do Zodíaco está de volta! Bem, ao menos no Japão, que terá a partir do emblemático 1º de abril uma nova série: Saint Seiya Ω (Omega). E não se trata de uma pegadinha antecipando o tal dia da mentira.
A nova animação (que não é inspirada em nenhum mangá) conta a história da geração seguinte de cavaleiros, que defenderão Athena no lugar de Seiya, Shiryu, Hyoga, Ikki e Shun.
O visual dos Cavaleiros foi repaginado por Yoshihiko Umakoshi
Originalmente a saga de Seiya e “os outros” é fruto da semanal Shonen Jump, berço dos enredos mais famosos do mundo dos mangás. O público alvo são os rapazes, e é aí que mora a principal diferença já que a saga Omega é voltada para meninos.
O traço infantil sugere que o banho de sangue visto na série clássica será ao menos mais discreto. Afinal, o horário será cedinho: todo domingo às 6h30 da manhã, na TV Asahi (a mesma que transmitiu Cavaleiros do Zodíaco por lá no passado), entre um tokusatsu e outro.
O enredo de sempre
Kouga é o “Seiya” da vez: garoto rebelde de 13 anos que assume a lendária armadura de Pégasus. A presença de Seiya de Sagitário já está marcada na única imagem divulgada até agora.
Lista dos Cavaleiros de Bronze:
Kouga de Pégasus (13 anos). O herói destemido e rebelde.
Yuna de Águia (14 anos). A amazona sem máscara.
Souma de Leão Menor (14 anos). Amigo leal de Kouga.
Ryuuhou de Dragão (12 anos). Irmão mais novo de Kouga.
Eden de Orion (15 anos). O enigmático (seria o “Ikki” da vez?).
Haruto de Lobo (13 anos). O inteligente descendente de ninjas (!!).
Saori Kido, a reencarnação da deusa Athena, continua na história – e novamente passando por apuros já que mais uma vez é sequestrada! Agora pelo novo vilão: Marte. Missão para o cavaleiro de Pégasus e seus amigos. Já viu esse filme antes? Pois é…
Minhas maiores expectativas são para as referências à série clássica, assim como a presença de alguns cavaleiros já conhecidos – dando aquele tempero extra para os mais nostálgicos.
Pouca influência de Masami Kurumada
O criador de Cavaleiros do Zodíaco terá ao que tudo indica uma função de “consultor” da fase Omega. A animação segue com o selo de qualidade da Toei, mas roteiro e traço ficarão com outros autores – o que aumenta a imprevisibilidade do que vem por aí.
Os cinco cavaleiros de bronze são a referência do passado em Saint Seiya Omega
O experiente Yoshihiko Umakoshi é o diretor chefe de animação e cuida do visual dos personagens. O repertório de Yoshihiko é vasto, cuidando por exemplo do character design de Mushishi, Berserk, Marmalade Boy, Air Master e Casshern Sins.
O roteiro fica a cargo da também experiente Yoshida Reiko. Ela trabalhou com roteiros de séries famosas como Digimon, Genshiken, D.Gray-man, K-On! e Bakuman.
Já Morio Hatano será diretor de uma série pela primeira vez. Até então só dirigiu episódios, como em Heartcatch Precure! e Kaidan Restaurant.
Golpe (comercial) de mestre
Não é novidade que a principal financiadora da série é a gigante de brinquedos Bandai. Daí não vejo porque se surpreender em uma série voltada para o público infantil, consumidor de uma gama maior de produtos licenciados. Já estou até vendo o rosto de Kouga (“e os outros”) estampado na embalagem de balas ou de um tempero furikake…
Pode dar certo? Não tenho dúvidas. O alcance dessa nova série será renovador. Além das cifras novas na conta bancária do “empresário” Masami Kurumada, haverá uma renovação de público. É pegar uma fórmula comercial que deu certo no passado e repetir.
São 25 anos de criação da série. E levando em conta que a estreia aqui no Brasil foi em 1º de setembro de 1994 (pouco depois de Dunga levantar o Tetra nos EUA), Omega vem mesmo para arrebatar os filhos daquela geração. Afinal, são as crianças pequenas que consomem os animes de 6h30.
Chegou a se cogitar um remake da série antiga, mas a “ressurreição” de Cavaleiros do Zodíaco vindo através de um anime totalmente novo é um passo a mais até para conquistar o sedutor mercado norte-americano.
E os fãs puristas?
Quem (assim como eu) viveu a gloriosa época de animações na TV Manchete adora Cavaleiros do Zodíaco. Por exemplo, não tem como não se lembrar com carinho da interminável batalha das 12 Casas (por conta das reprises que sempre na Casa de Leão insistiam em interromper a alegria da garotada).
A série Omega não vem para “substituir” nada, muito menos as boas memórias. Da mesma forma com que hoje existem muitas opções, como Lost Canvas, Episódio G, Next Dimension, e até um filme 3D vindo por aí esse ano, Omega vem para somar – e aposto que será divertida. É só não levar o saudosismo falar mais alto com comparações bobas.
Filme em 3D saí ainda em 2012 – e é esperança dos fãs da série clássica
Não gosto de julgar nada que não vi. Então recomendo que esperem o mês de abril, quando a série será tema recorrente entre os fãs do mundo inteiro. Mas, quem não tiver mente aberta, recomendo muita cautela, já que pelo visto terá mesmo outro ritmo em comparação com aquele anime que revolucionou a TV brasileira.
Essa é uma dica para quem mora no Rio de Janeiro, mas a reflexão serve para qualquer fã de cultura pop japonesa do Brasil. Na sua cidade há um lugar para discussão, reflexão e (principalmente) aprendizado de mangás? Uma das melhores opções aqui no Rio é o Studio Mangaka, na Tijuca.
Belo trabalho da aluna Luisa “Kunogi” Leal, do Studio Mangaka
Raro achar um lugar que dê destaque não apenas para os traços estilo mangá, mas para o que vai além disso. Igualmente importante ao curso de desenho é aprender a narrativa, os gêneros direcionados, a própria história dos quadrinhos japoneses.
Esse é um diferencial bem bacana do Studio Mangaka: lá você tem opções de estudar desenho, japonês ou cultura japonesa. Seja pra quem quer se aprofundar mais, ou como hobbie (ideal para férias), tudo dirigido pela designer Bianca Costa, que entende mesmo dos assuntos.
Boas opções são raras no Rio
Lembro que cerca de 12 anos atrás o Rio de Janeiro tinha um cantinho que lembrava um pouco o delicioso Bairro da Liberdade (em São Paulo). Havia algumas lojas com produtos japoneses diversos, desde mangás até fitas VHS para locação (tudo gravado da TV japonesa, sem legenda e com comerciais… um luxo para os fãs da época!). Essas lojas (Donguri e Rio Shobo) ficavam na região do Largo do Machado, mas eram desconhecidas da maioria. Algo meio secreto, restrito para a pequena comunidade japonesa na cidade. E justamente esse ostracismo acabou fechando as portas do comércio.
Partindo dessa história, tenho para mim que boas dicas devem ser compartilhadas, e não apenas guardá-las para si (como muita gente fazia com as livrarias/lojas que fecharam).
Bazar até dia 27 de janeiro
Ao longo dessa semana (23 a 27 de janeiro) o Studio Mangaka realiza um bazar exclusivo, diariamente das 17h às 19h. É uma boa chance de conseguir (por um preço barato) materiais de mangá e produtos de séries consagradas como Cavaleiros do Zodíaco, Death Note, One Piece, Bakuman, Naruto, Hetalia, Evangelion, Dragon Ball Z… não é sempre que encontramos goodies assim fora dos eventos de anime, né?
Um pedacinho dos produtos do bazar. Opções legais por preços melhores ainda!
Tem bottons, bonecos, banners, pingentes de celular e marcadores de livros para todos os gostos, e assim é uma boa oportunidade conhecer o estúdio nessa semana mesmo. Seja sozinho ou levando amigos e filhos (afinal, é um espaço para todas as idades).
Local e mais informações
O Studio Mangaka é bem ao lado da Praça Saens Peña (pertinho do Metrô).
Endereço: Rua Conde de Bonfim, 406 – B, Sala 209, Tijuca – Rio de Janeiro
Telefone: 2568–1616
Horário/dias de funcionamento: Terça à Sexta de 9h às 19h e Sábado de 9h às 16h.