Foi o jogo que todos esperávamos. O Botafogo entrou disposto, se lançou à frente e até criou chances, mas parou em Cavalieri e o Fluminense, mais preciso mesmo sem Deco, aproveitou boa jogada de Carlinhos para ser campeão com mais uma vitória.
Carlinhos, aliás, foi o melhor em campo hoje e eu, que tanto o critico por aqui, tenho que admitir que ele vem fazendo ótimas partidas na lateral. Nosso camisa 6 tem sido uma flecha pela esquerda, trabalhado bem as jogadas com Sóbis e, mais importante, parece temporariamente livre das cochiladas que tanto comprometem suas participações.
O Flu cumpriu atuação correta e chegou ao título sem sustos, mas será que Deco precisava mesmo ir a campo? Compreendo que pegaria mal poupar o craque do time de uma decisão de campeonato mas, por mais que equipe e torcida tenham (corretamente) insistido no contrário, o Carioca foi decidido no último domingo.
Às vésperas de um confronto de quartas de final de Libertadores, contra um adversário como o Boca, com apenas dois dias de descanso após uma partida exaustiva contra o Inter, o gramado encharcado pela chuva ininterrupta… O jogo era um prato cheio para lesões e Deco era, sem dúvida, o grande favorito para se machucar.
Não vou dizer que houve erro, pois sei que são escolhas difíceis. Mas o fato é que o Fluminense, tão elogiado nesse primeiro semestre por poupar Deco e Fred e submetê-los a um trabalho físico personalizado, vai para o jogo mais difícil da temporada sem seus dois principais jogadores.
Ir a Bombonera sem Deco e Fred é um pesadelo.
Rafael Moura ganha confiança com o gol de hoje e acredito plenamente que ele pode marcar na Bombonera. Trata-se de um matador competente, que cresce em jogos decisivos e, afinal, anotar um gol como visitante é o máximo que podemos pedir de um centroavante – Fred, mesmo que jogasse, dificilmente faria mais de um gol.
Mas o que não teremos com He-Man, e temos com Fred, é a possibilidade de prender a bola na frente, de transformar um chutão ou tiro de meta em posse de bola no ataque. E, para chegar ao ataque, tampouco teremos Deco, centralizador absoluto de toda a criação tricolor.
Wagner entrou bem hoje e terá, na Bombonera, sua grande chance. O futebol, como o mundo e a vida, dá voltas: contratado com status de grande reforço, Wagner foi relegado a segundo plano após atuações apagadas e sumiu até do banco de reservas em algumas partidas; agora, da noite para o dia, será titular na partida mais importante e cativante. E precisaremos dele.
O que consola é que teremos Thiago e Sóbis, cada vez mais afinados em suas tarefas multi-funcionais, e o importante reforço de Wellington Nem para o decorrer da partida. Mas a noite de quinta-feira, que já prometia fortes emoções, tornou-se ainda mais dramática. O título carioca, conquistado com tanta facilidade contra o Botafogo, acabou cobrando um preço alto.
Mas, até quinta, festejemos. Porque o Fluminense volta a ser campeão carioca (de novo com Abel) e, se tudo der certo, dentro de dois anos teremos recuperado nossa hegemonia local. Cresci acostumado a dizer que o Tricolor era o maior campeão do Rio e é extremamente desagradável lidar com a atual vantagem rubro-negra. Isso precisa acabar, e logo.
O título conquistado na semana passada e ratificado hoje com o gol de Rafael Moura é o primeiro passo para reconquistar uma posição que é nossa – queiram ou não queiram os números.
Aproveito para anunciar que, a partir dessa semana, estarei escrevendo também, sempre às terças, no Bendito Flu.
Se não vai por bem, vai por mal. Quando não dá no jeito, dá na força. A semana que começou com show e vai terminar com o título estadual teve, nessa quinta-feira, seu capítulo mais difícil. Mas, se os meios foram hoje menos nobres do que os de domingo, o fim, por sorte, foi o mesmo: alegria em três cores na saída do Engenhão.
É que dessa vez era Libertadores e o Inter, por mais arrogante que tenha sido Damião em sua declaração antes do jogo, de fato não é o Botafogo. Você não elimina o Internacional de uma Libertadores a troco de nada; seja você o Fluminense, o Boca Juniors ou o Once Caldas, você vai sofrer se quiser avançar em detrimento do Inter. E o Fluminense sofreu.
O Tricolor não foi, hoje, o time de domingo. Não foi o Flu que brilha, o dos toques rápidos, do talento, da inteligência; não foi, em suma, o Fluminense de Deco.
O Maestro não encontrou contra o Inter os espaços que o Botafogo lhe deu. Muito marcado, se viu obrigado a tentar o drible em diversas jogadas e, em rigorosamente todas, foi desarmado. Encontrou um ou outro bom passe, mas jamais chegou a ditar o ritmo do jogo e, como costuma lhe acontecer em noites assim, foi aos poucos se irritando.
Deco dessa vez não foi o diferencial e, a bem da verdade, jogou muito mal. Sua saída para a entrada de Valencia foi mais do que acertada num momento em que Dorival mandava a campo um arsenal interminável de centroavantes.
O Fluminense que eliminou o Inter foi o da precisão cirúrgica de Thiago Neves, jogador de momentos mas que raramente decepciona nos mais importantes; foi o Flu de Fred, o camisa 9 que marcou o gol da vitória na única chance que teve em toda a partida; e foi sobretudo o Time de Guerreiros, encarnado mais que tudo na atuação defensiva impecável de Edinho e dos dois laterais.
É preciso falar também de Gum e Leandro Euzébio, uma dupla de pesadelo no primeiro tempo mas perfeita quando, com o jogo se encaminhando para o fim, o pesadelo eram as bolas alçadas para os gigantes colorados em nossa área. Nas poucas bolas que passaram Cavalieri esteve mais uma vez seguro e, não esqueçamos, é a ele mais do que ninguém que devemos essa classificação – o pênalti de Dátolo no Beira-Rio teria, por certo, dado outro rumo ao confronto.
Na frente Sóbis foi o batalhador incansável de sempre e Thiago, decisivo nas bolas paradas, foi também nosso atacante mais lúcido num segundo tempo em que o Flu praticamente não teve a posse da bola. Que sofrimento, meu deus!
Em dado momento perguntei a meu amigo Miguel sobre o tempo e sua resposta, 34 minutos, foi como uma punhalada no coração. Parecia impossível suportar a pressão.
Mas o Flu suportou, passou pela tempestade como vem passando por tudo nos últimos anos e, agora, o destino nos coloca de novo frente ao Boca.
Diguinho e Wellington Nem estarão à disposição e Abel terá de fazer escolhas, porque parece difícil tirar Sóbis do time e Jean foi, hoje, o melhor jogador do Fluminense: correu sem parar, apareceu em todas as partes do campo, levou o time ao ataque com a bola nos pés e até, na medida do possível, assumiu o papel de organizador que Deco não pôde cumprir.
Mas o Fluminense que vence com Jean é o mesmo que encanta com Deco, e o Flu dos golaços e da bicicleta de Fred é o mesmo dos gols de bola parada e dos chutões para o campo de ataque.
O Flu tem brilhado às vezes, mas vencido sempre que precisa. E tem tido a cara certa para vencer em cada ocasião.
Deco poderia ter jogado melhor, poderíamos ter encaixado um contra-ataque no segundo tempo e garantido a classificação com menos sofrimento… Mas poderíamos mesmo?
Não sei. Cada jogo tem sua cara, e os 4×1 sobre o Botafogo, possíveis dentro da mística dos clássicos estaduais, não me parecem plausíveis contra o Inter numa Libertadores. É preciso ter a cara das partidas e a cara do Flu, técnico ou oportunista, brilhante ou guerreiro, tem sido a cara de um time vencedor.
Ainda bem que o Boca nos venceu no Engenhão, porque o Boca é um time vencedor e não nasceu para ser freguês de ninguém.
O Flu tem pela frente mais um desafio imenso e, nessas quartas, tudo pode acontecer.
Quando, no lance seguinte à expulsão de Lucas, Sóbis fez jus ao passe genial de Deco e pôs a bola no ângulo, uma possibilidade se abria para o Fluminense. Melhor durante todo o jogo, à frente no placar e com um jogador a mais, e tendo pela frente um desafio tão torturante como o de quinta, o Tricolor precisava definir de uma vez por todas o confronto com o Botafogo. O Estadual precisava terminar hoje.
E terminou. Abel e os jogadores compreenderam o que estava em jogo; tiveram a leitura perfeita do momento e de suas possibilidades. O Flu esperou o Botafogo e, antes da parada técnica, já encaixara o contra-ataque que almejava. Oswaldo, que de bobo não tem nada, entendeu que a decisão lhe escapava na primeira partida e, ao trocar Loco Abreu por Herrera, evidenciou que o Botafogo, mesmo perdendo por 3×1, jogaria dali em diante no contra-ataque.
Loco Abreu, bom centroavante, é útil quando o time joga no ataque e a bola chega pelo alto, mas pouco apto para as subidas em velocidade. Oswaldo pensou certo: sabia que o Fluminense ia para cima em busca de uma vantagem confortável e, portanto, optava por defender-se e, quem sabe, surpreender. Mas a substituição, bem pensada para seus objetivos, acabou por traí-lo na medida em que, justamente, deixou sua estratégia clara demais.
Abel, a quem volta e meia criticamos por uma certa falta de sofisticação em suas escolhas táticas, não poderá nunca ser chamado de ingênuo. É macaco velho do futebol e conhece as armadilhas que uma partida pode oferecer. Deco também sabe um pouco das coisas e, do alto de seu posto de comandante absoluto da partida, tratou de conduzir o Fluminense ao ritmo da música. O Tricolor não se deixou seduzir pelas circunstâncias, esperou o tempo passar e, na hora certa, aplicou seu golpe de misericórdia.
No futebol tudo é possível mas o título carioca vai, após sete anos, para as Laranjeiras. E, para além da atuação brilhante, foi uma tarde fatídica pela afirmação da maturidade de uma equipe que entrou em campo desligada, sofreu um gol improvável e flertou com velhas dificuldades, mas jamais se abateu, atropelou um adversário invicto nesse ano e a quem ainda não vencera no Engenhão e soube responder perfeitamente a cada um dos momentos capitais da partida.
Mas falemos, então, da atuação brilhante que fez com que a torcida, numa das rampas de acesso ao setor Leste Superior, se transformasse ao final da partida num verdadeiro bloco de carnaval.
Com dez minutos jogados o Fluminense já perdia por 1×0 e já dominava completamente a partida. Carlinhos era uma flecha pela esquerda, defesa e volantes cumpriam atuações corretas e Deco, muito antes de o Tricolor começar a ameaçar de fato, já tomara o jogo para si. O Maestro buscava a bola no campo de defesa, era o eixo central do jogo de posse de bola tricolor, participava como nenhum outro jogador em campo e organizava o Flu com inteligência ímpar e passes precisos.
Foi dele o passe de primeira, com a bola no ar, que encontrou Carlinhos quando o primeiro tempo caminhava para terminar com a vitória parcial e injusta do Botafogo. O lateral viu Thiago Neves no segundo poste e, dessa vez, ao contrário de tantas outras em tantas partidas, cruzou com força e decisão.
A bola chegou em Thiago e, aqui, cabe um parêntesis para falar rapidamente sobre a participação do camisa 7 na partida de hoje. Thiago vive momento terrível, não tem acertado nada, e sabe disso. Já reconheceu em entrevistas, admitiu o incômodo com a situação e prometeu, repetidas vezes, que vai passar. A má fase não o impediu, no entanto, de ser decisivo na contundente vitória frente ao Vasco na final da Taça Guanabara.
Mas o que não se poderá dizer é que ele não tenta. Thiago dá tudo de si a cada jogo e, mais que isso, a forma como é querido pelo elenco me faz imaginar que se esconde, por trás da máscara de insolência, um atleta solidário e com enorme espírito de grupo. Thiago hoje se multiplicou pelo campo. Foi participativo na meia-direita, dialogou com Deco e com Bruno, cobriu as subidas do insinuante Márcio Azevedo e foi, em suma, o winger perfeito no 4-2-3-1 europeu que vem sendo usado por Abel.
As coisas, no entanto, continuavam dando errado. Uma boa jogada no primeiro tempo, interrompida por Jéfferson, não fora suficiente para apagar os diversos erros de passe e tropeços na bola. Mas o que má fase nenhuma conseguirá anular é a inteligência, a leitura correta do jogo, e essas coisas Thiago tem. E tem também o recurso do uso da cabeça, agora no sentido literal. Thiago tem o timing perfeito da cabeçada e foi assim que serviu como garçom para a bicicleta primorosa de Fred.
Falei aqui outro dia sobre a capacidade que Rafael Moura e outros centroavantes finalizadores têm de, de alguma forma, fazer com que as bolas entrem no gol. O que diferencia os jogadores como Fred dessa categoria de atacantes é a capacidade de servir ao time de outras formas, como fez o camisa 9 no gol de Marcos Jr. ou nas inúmeras bola que dominou de costas para os zagueiros, mas é também o fato de que são capazes de direcionar a bola ao gol em um número muito mais amplo de situações.
Os recursos de Fred são muitos, variados e insuspeitados, e é infinitamente valioso ter um jogador capaz de encontrar um gol como o de hoje – num jogo em que o Flu era melhor mas não conseguia marcar.
O gol no final do primeiro tempo foi um prelúdio do que seria o segundo. Pois, depois do intervalo, o Fluminense deu show.
O Botafogo vai colocar muito na expulsão (indiscutível) de Lucas, mas a verdade é que o Tricolor foi sempre melhor e que o futebol tem nos mostrado uma série de partidas em que equipes com um jogador a menos jogam de igual para igual ou mesmo melhor do que os adversários.
Não foi o caso do Botafogo, que já não jogava bem desde os primeiros dez minutos mas, após a expulsão e o gol, simplesmente deixou de existir em campo. Desorganizou-se completamente, abdicou de qualquer pretensão ofensiva e, embora tenha jogado bem em alguns jogos e muito bem contra o Vasco, terá de aceitar o vice-campeonato carioca como decorrência do enorme déficit de qualidade de seus jogadores em relação aos do Fluminense.
O terceiro gol foi uma pintura. A triangulação entre Deco e Bruno, o passe perfeito de Thiago e a conclusão improvável de Sóbis, que compensou a ausência do veloz Wellington Nem com inteligência e seu assombroso poder de finalização. E como é bom ter Rafael Sóbis em campo numa decisão! Quinta-feira, além de decisivo, o jogo é contra o Internacional e pela Libertadores. O departamento médico trabalha para liberar Wellington e, se conseguir, Abel terá uma decisão complicada para tomar.
No quarto gol, o que selou o destino do campeonato, o toque de bola do Barcelona, digo, do Fluminense deu gosto de ver. Deco para Sóbis, de letra para Fred e do capitão com açucar para Marcos Jr. marcar seu primeiro gol pelos profissionais. A entrada e o gol de Marcos Jr. numa tarde tão brilhante simbolizam o projeto de um Flu voltado para o futuro.
Futuro que começa na quinta, quando o Tricolor terá pela frente seu maior desafio até aqui nessa temporada. O Internacional é parada muito dura, a Libertadores não permite erros e o 0×0 no sul passa longe de ser ruim para os gaúchos.
O título carioca, após sete anos em que o Flu sequer chegou às finais, é muito importante. Mas quero acreditar que conquistamos, hoje, mais do que a taça. O Tricolor atropelou o Botafogo e o fez amparado no talento de seus quatro homens de frente. Fred decidiu, Thiago e Sóbis iluminaram a tarde e Deco foi mais do que poderíamos esperar.
Ex-Barcelona e um dos principais precursores da era Messi, Deco está a cada dia mais próximo de si mesmo no Fluminense. Vem fazendo a diferença desde o ano passado mas, hoje, extrapolou: tomou o jogo para si e decretou que, naquele gramado, mandava ele – que procurassem outro os incomodados. Deco comandou a tarde sem dar margem a discordâncias e, com a possível exceção de Neymar, não há hoje no futebol brasileiro jogador capaz de desequilibrar tão inapelavelmente uma partida a favor de um dos lados.
Aos 34 anos o Maestro correu sem parar, foi onipresente em campo e voltou a brilhar intensamente em uma decisão. Somente me preocupa que o Fluminense pareça irremediavelmente incapaz de organizar uma jogada que seja sem a participação de seu camisa 20.
O desafio de quinta-feira é enorme. Mas esse Flu, como Deco, parece crescer nas grandes ocasiões.
Não há previsão possível para confronto tão dramático mas, ainda assim, acho que o Fluminense dificilmente não irá às quartas se jogar com o ímpeto e a inteligência de hoje.